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A dor invisível das mulheres com fibromialgia: quando o corpo grita e ninguém escuta

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“A dor é inevitável. O sofrimento é opcional”
Carlos Drummond de Andrade

Há frases que nos provocam. Sempre que releio essa sentença de Drummond, detenho-me na delicadeza e na dureza que ela carrega. A dor é inevitável. Sim, viver implica atravessar perdas, limites, frustrações, adoecimentos. Mas será mesmo que o sofrimento é opcional quando a dor é negada, desqualificada, ridicularizada? Quando o que dói não aparece nos exames e, por isso, passa a ser tratado como fantasia?

Hoje quero conversar com você, mulher que convive com fibromialgia. E também com você, colega médico. Porque esta não é apenas uma questão clínica. É uma questão ética, cultural e, ouso dizer, civilizatória.

A fibromialgia é uma condição reconhecida pela Medicina contemporânea. Possui critérios diagnósticos estabelecidos, é objeto de pesquisa séria, envolve mecanismos complexos de sensibilização central, alterações na modulação da dor, distúrbios do sono, disfunções neuroquímicas e impacto do estresse crônico.

Fibromialgia não é invenção. Não é fragilidade moral. Não é capricho. E, no entanto, quantas mulheres ainda percorrem um verdadeiro rosário de consultórios ouvindo, de maneira explícita ou sutil, que “não têm nada”? Você que me lê talvez já tenha passado por isso.

Dor difusa pelo corpo, como se cada músculo estivesse em permanente estado de tensão. Cansaço que não se resolve com uma noite de sono. Sono, aliás, que não é reparador. Dificuldade de concentração. Sensibilidade aumentada. E exames laboratoriais absolutamente normais.

A normalidade dos exames deveria ser boa notícia. Mas, para muitas mulheres, transforma-se em sentença de descrédito. Porque, se não há imagem que comprove, se não há marcador que aponte, então a dor passa a ser suspeita. E é nesse momento que surge a frase devastadora: “Isso é coisa da sua cabeça”.

Permita-me dizer algo com toda clareza. Mesmo que haja componentes emocionais envolvidos, isso não torna a dor menos real. O cérebro faz parte do corpo. A modulação da dor ocorre em circuitos neurais concretos. A sensibilização central é fenômeno amplamente estudado. A experiência dolorosa é sempre biopsicossocial. Reduzi-la a “psicológica”, no sentido pejorativo, é desconhecer tanto a biologia quanto a psicodinâmica.

Mas há um elemento que não pode ser ignorado. A fibromialgia acomete predominantemente mulheres. E não podemos desconsiderar o quanto, historicamente, o sofrimento feminino foi minimizado, reinterpretado como exagero ou etiquetado como histeria. Mudam-se os nomes, mas certos preconceitos persistem de forma mais sofisticada.

Vivemos numa cultura que exige da mulher desempenho ininterrupto. Trabalho, maternidade, cuidado com os outros, produtividade, disponibilidade emocional. A mulher que adoece e, mais ainda, que adoece de algo invisível, parece romper um pacto silencioso de eficiência. E isso incomoda.

Você, mulher com fibromialgia, muitas vezes começa a duvidar de si mesma. Pergunta-se se está sendo fraca. Se deveria suportar mais. Se não está exagerando. A dúvida interna soma-se à dor física. E então o sofrimento deixa de ser opcional. Ele se instala porque, além de doer, você precisa provar que dói.

Retomo aqui a epígrafe de Drummond. Talvez o sofrimento não seja opcional quando a dor é atravessada pela solidão. Quando ninguém legitima sua experiência. Quando o discurso técnico se transforma em instrumento de silenciamento.

Ao longo de mais de quatro décadas de exercício da Medicina, escutei inúmeras histórias semelhantes. Mulheres que passaram por ortopedistas, reumatologistas, neurologistas, clínicos, psiquiatras. Cada nova consulta trazia esperança. Cada alta sem resposta trazia frustração. Algumas receberam medicações fragmentadas. Outras ouviram recomendações genéricas para relaxar, fazer yoga, pensar positivo. Como se a complexidade neurobiológica da dor pudesse ser dissolvida em frases motivacionais.

É preciso dizer que a fibromialgia exige abordagem integrada. Sono precisa ser cuidado com seriedade. Atividade física deve ser introduzida de forma gradual e supervisionada. Estratégias de manejo do estresse são fundamentais. Psicoterapia é aliada valiosa. Em alguns casos, farmacoterapia é necessária. Em outros, intervenções complementares podem contribuir. O que não é aceitável é a negligência disfarçada de ceticismo.

E aqui dirijo-me aos colegas médicos. Fomos formados dentro de um paradigma que privilegia o visível, o mensurável, o objetivamente comprovável. Quando não encontramos lesões, alterações laboratoriais ou imagens que justifiquem a intensidade da queixa, podemos experimentar frustração. E, se não estivermos atentos, essa frustração pode se transformar em desqualificação do paciente.

A fibromialgia nos convoca à humildade científica. Nem tudo que é real é imediatamente visível. Nem toda dor se deixa capturar por um exame complementar. A ética médica nos impõe um dever elementar: acreditar no relato do paciente. Dor é experiência subjetiva. Não existe régua externa capaz de medi-la com precisão absoluta.

Quando dizemos, ainda que indiretamente, que é “só psicológico”, podemos estar protegendo nossa própria sensação de impotência diagnóstica. Mas o preço dessa defesa é alto. É pago pela paciente que sai do consultório sentindo-se menor, exagerada ou inadequada.

A Medicina que desejo ensinar aos meus alunos, nas disciplinas de comunicação na relação médico-paciente e ética médica, é uma Medicina que sustenta o não saber sem humilhar quem sofre. Uma Medicina que reconhece os limites do conhecimento atual sem transformar esses limites em negação da dor alheia.

Se você, mulher, sofre com fibromialgia, quero que saiba que sua dor é real. Seu cansaço é real. Sua dificuldade de concentração é real. Sua oscilação de humor diante de tanto desgaste é compreensível. Você não é fraca. Você não é exagerada. Você não está inventando.

E se você é médico, pergunto-lhe com sincera fraternidade profissional: estamos escutando de fato? Estamos atualizados quanto aos mecanismos neurobiológicos da dor crônica? Estamos conscientes do viés de gênero que pode atravessar nossas interpretações clínicas? Estamos oferecendo cuidado ou apenas descartando o que não compreendemos?

A dor pode ser inevitável em determinadas circunstâncias. Mas o sofrimento se agrava quando a dor é desacreditada. Talvez a verdadeira tarefa ética da Medicina seja justamente esta: transformar a experiência da dor, não pela negação, mas pelo reconhecimento, pelo vínculo e pela estratégia terapêutica consistente.

Que possamos aprender a enxergar aquilo que não aparece nos exames. Porque o invisível, quando ignorado, pode ser devastador. E nenhuma mulher deveria carregar, além da dor no corpo, o peso de ter sua verdade negada.

originalmente do JLPolitica.com.br

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