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Maio e a delicada arte de cuidar

“Deus não podia estar em toda parte e, por isso, fez as mães” – Provérbio judaico

Maio é um mês simbólico. Talvez um dos mais afetivos do calendário. É o mês das mães, das noivas, de Nossa Senhora de Fátima e também daquilo que existe de mais profundamente humano: a capacidade de cuidar.

E maternagem não pertence exclusivamente às mulheres. Maternar é acolher, sustentar emocionalmente, proteger a fragilidade sem humilhar o outro. Há homens que maternam. Avós que maternam. Professores, médicos, amigos e até desconhecidos que, em determinados momentos, oferecem ao outro aquilo que há de mais terapêutico: presença.

Vivemos uma época de muitas conexões e poucos vínculos. Nunca estivemos tão acessíveis e, paradoxalmente, tão emocionalmente distantes. As pessoas andam cansadas. Ansiosas. Solitárias. Muitas vezes não pela falta de recursos materiais, mas pela ausência de escuta, afeto e pertencimento.

Na clínica, observo frequentemente adultos que aprenderam a funcionar, mas não aprenderam a sentir-se acolhidos. Gente eficiente, produtiva, competente, mas emocionalmente exausta. O corpo então começa a falar através da insônia, da ansiedade, da irritabilidade e até do adoecimento físico.

Winnicott, um dos grandes pensadores do desenvolvimento emocional, afirmava que “não existe bebê sem mãe”. Naturalmente, ele não se referia apenas à mãe biológica, mas à presença emocional suficientemente boa que sustenta o início da vida psíquica. Ninguém constitui sua subjetividade sozinho. Todos precisamos, em algum momento, de um olhar que nos reconheça, de uma presença que nos legitime emocionalmente.

Quando releio a epígrafe deste texto, penso que ela traduz algo muito profundo. Talvez a maternagem seja uma das experiências mais próximas do sagrado. Porque cuidar verdadeiramente de alguém é suspender, ainda que por instantes, a dureza do mundo.

Nossa Senhora de Fátima representa exatamente esse arquétipo do acolhimento materno que consola sem julgar. Independentemente da religião, existe algo universal nessa imagem da mãe que protege.

Curiosamente, maio também é o mês das noivas. E amar, em sua forma madura, também é uma maneira de cuidar. Relações adoecem quando desaparecem a delicadeza, a escuta e a capacidade de enxergar o outro para além de suas falhas.

As redes sociais criaram famílias perfeitas, mães perfeitas, casamentos perfeitos. Mas a vida real não acontece assim. Pessoas reais se cansam. Casamentos atravessam crises. Mães também adoecem emocionalmente. E talvez seja justamente a aceitação da imperfeição que humanize os vínculos.

O afeto continua sendo um poderoso fator de proteção para a saúde mental. A ciência já demonstrou aquilo que o coração humano sempre soube: vínculos seguros diminuem sofrimento psíquico.

Talvez maio venha nos lembrar exatamente disso. Que ninguém floresce sem cuidado. Que o amor cotidiano ainda cura. E que a ternura permanece sendo uma das formas mais sofisticadas de resistência humana.

originalmente do JLPolitica.com.br

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