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Because I Got High… em New Orleans

“Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento” Clarice Lispector

Caro leitor, se você nasceu antes dos anos 1990, recomendo um dicionário ou um sobrinho adolescente para entender o título. Mas siga comigo, esta história vale a viagem.

Fazer uma road trip entre Mississippi e Louisiana era um desejo antigo. Hattiesburg, onde morei e estudei inglês. E New Orleans, onde passei um réveillon inesquecível na Bourbon Street, berço do jazz e das extravagâncias.

Hospedamo-nos no charmoso Place d’Armes, bem no French Quarter. O pátio interno parecia cena de filme francês: laptops, vinhos, crianças na piscina, casais em silêncio cúmplice. A poucos passos da Bourbon Street.

Às seis da tarde, descemos para reviver a memória da rua. No passado, era puro delírio: multidão, colares coloridos, música alta, vitrines provocativas. Hoje, bem mais pacata. Bandinha de jazz tocando na rua, famílias com crianças, lojas de souvenir.

Numa dessas lojas, entrei para comprar um charuto cubano para meu genro. E lá estavam eles: chocolates e jujubas com canabidiol. O vendedor, aos risos, garantiu que era legal, que a jujuba era inofensiva. Nós, três mulheres respeitáveis (e curiosas), compramos algumas. Só por brincadeira, dissemos.

Fomos jantar no “Favela Chic” — sim, esse era o nome do restaurante. Jazz ao vivo, ambiente gostoso, pizza gigantesca e cerveja gelada. Experimentamos a tal jujuba. Só uma. Sabor de limão, sem graça. Risos nervosos. A noite ainda estava só começando.

Partimos rumo ao Royal Frenchman, onde o verdadeiro show nos esperava: Trumpet Mafia, jazz potente, taça de pinot noir. E então… uma das meninas se sentiu mal. A outra começou a rir descontroladamente. E eu… comecei a flutuar. Literalmente.

Formigamento na língua, rosto quente, equilíbrio comprometido. “Estaria bêbada?” – pensei. Mas o vinho foi pouco. A pizza, leve. Algo não batia.

Diagnóstico compartilhado: a jujuba. Resgatamos a embalagem: 12 mg de THC e 12 mg de CBD. A dose de uma bala era o dobro da de cada pedacinho do chocolate. Tudo fazia sentido.

Voltamos ao hotel cambaleando. Rindo, vomitando, tentando entender. Uma queria ligar para o 911, mas hesitou: “Melhor não! Tô de calcinha velha!” — gargalhadas coletivas. Eu, tentando manter a sanidade, só pensava: é só um barato passageiro. É só uma jujuba…

Depois de muito chocolate – o verdadeiro – e litros de água, os efeitos foram passando. Dormimos. Sobrevivemos. E, claro, descobrimos que até senhoras podem ter sua “bad trip adolescente”… com décadas de atraso.

Clarice estava certa: viver ultrapassa qualquer entendimento. E, por vezes, uma jujuba também.

Hoje, desejo voltar a New Orleans — pela terceira vez — para, enfim, assistir ao show perdido, com meu vinho na mão, e sem bala nenhuma.

E você, leitor? Qual foi a sua travessura tardia?

The end!

originalmente do JLPolitica.com.br

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