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A escuta que não escuta: por que ChatGPT não pode substituir a psicoterapia real

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Você pode saber o que dissemas nunca o que o outro escutou” – Jacques Lacan

Vivemos um tempo estranho. Um tempo de hiperconexões, vazio afetivo e silêncios duros. É cada vez mais comum adultos maduros, cansados da repetição da solidão ou imersos no excesso digital, recorrerem ao ChatGPT como se fosse um ouvido amigo, rápido, gratuito, sempre disponível. “Me sinto compreendido”, dizem. “Ele responde com empatia”. “É como terapia, mas mais leve”.

Mas será isso uma escuta? Será que o alívio momentâneo equivale à transformação possível em um encontro terapêutico humano?

Você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou. Essa frase de Lacan nos lembra da disjunção entre fala e efeito, e nos alerta: a escuta verdadeira não é apenas captar palavras, mas ser afetado pelo silêncio que o sujeito, consciente ou inconscientemente, carrega.

Como médica, psicanalista e professora universitária, afirmo com firmeza: o ChatGPT não faz psicoterapia. Ele simula efeitos de empatia, responde no padrão e reflete linguagens emocionais. Mas jamais habita a presença, a transferência, o não-dito, a ambiguidade ou o silêncio construído. Não compartilha corpo, história, responsabilidade ética ou vínculo humano. É eco e nunca encontro.

Causa-me inquietação perceber que são os adultos maduros, sujeitos com repertório, autonomia e também solidão, que mais têm usado essa interação automatizada como substituta, talvez por desconhecimento, talvez por isolamento, talvez por uma crença na companhia instantânea do algoritmo.

Há sim estudos que apontam usos complementares da IA: lembretes, triagens, psicoeducação. Há quem formate aplicações com supervisão clínica para estimular o contato humano. Mas há uma distinção radical: isso não substitui a clínica real, onde o sujeito se constitui no diálogo, na fala fragmentada, na reflexão compartilhada.

Seria o fim da psicoterapia e da psicanálise que praticamos? Não. É apenas um desafio. Um chamado para reafirmar a singularidade do vínculo clínico e da escuta humana, especialmente em tempos de promover-nos eventos dedicados ao adulto maduro. Em Aracaju, entre os dias 7 e 9 de agosto, o Círculo Brasileiro de Psicanálise promoveu um espaço de reflexão sobre isso, não como publicidade, mas como espaço acadêmico para aprofundar essa inquietação entre psiquiatria e psicanálise, simbólico e biológico, silêncio e sintoma.

A verdadeira psicanálise resiste porque mora na intersubjetividade, no risco do real, no silêncio interrogador que só outro sujeito pode honrar. O ChatGPT não ocupa esse lugar. Ele não sustenta o não saber, não suporta o erro, não respeita a transferência. Ele não estabelece campo, não assume falta, não agradece o discurso que o atravessa.

Se, leitor, você se sentiu tentado a experimentar essa “terapia digital”, reflita: alívio não é transformação, companhia virtual não é presença. Convivo com médicos, psicanalistas, educadores e com muitos pacientes que encontraram na escuta humana a possibilidade de sentido, mesmo na dor.

A ética clínica exige que reafirmemos: cuidado não é algoritmo. Cuidado é escutar sujeito que fala, com presença, densidade e responsabilidade. Merecemos, e os adultos maduros em busca de sentido merecem, algo mais do que ecos bem formulados. Merecem escuta de verdade.

Se este texto lhe tocou de alguma forma, e se o tema do adulto maduro também lhe inquieta, seja você profissional da saúde, educador ou alguém simplesmente em busca de compreensão, deixo-lhe aqui como um contributo.

Para saber detalhes sobre esse estudo, acesse o artigo completo clicando aqui!

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