“Trata-se de traçar os limites do direito individual num momento existencial crítico, que deve estar sob controle apenas daquele que padece”
Editorial da Folha de S.Paulo em 13.08.2025
Em nossa cultura, falar sobre a morte ainda é quase um tabu. Muitos de nós evitamos o tema como quem teme abrir uma porta perigosa. Mas, no fundo, sabemos: a morte é a única certeza da vida. A questão é como vamos vivê-la – e, sobretudo, como vamos permitir que outros vivam seus últimos dias.
O editorial da Folha de S.Paulo de 13 de agosto de 2025, ao tratar do direito à morte digna, traz à tona um debate urgente e que costumo fomentar em sala de aula no curso de Medicina da UFS: a possibilidade de um paciente, diante de um sofrimento crônico e insuportável, ter a autonomia de decidir sobre o fim da própria vida, seja por meio da eutanásia ou do suicídio assistido.
Não se trata de apologia à morte, mas de defesa da liberdade. A morte digna, como conceito, nasce do reconhecimento da dignidade intrínseca do ser humano. Dignidade não é apenas viver – é viver de modo que faça sentido, com qualidade, com respeito aos próprios valores. Quando um paciente, apesar de todos os recursos médicos, encontra-se em um sofrimento físico ou psíquico irreversível, por que o Estado ou a sociedade deveriam impor a continuação dessa dor?
A epígrafe escolhida – “trata-se de traçar os limites do direito individual num momento existencial crítico, que deve estar sob controle apenas daquele que padece” – nos lembra que essa é uma decisão íntima, que não pertence à família, à religião, ao médico ou ao governo. Pertence a quem vive aquela dor, e a mais ninguém.
Ao redor do mundo, países como Holanda, Bélgica, Canadá e Espanha já regulamentaram formas de eutanásia e de suicídio assistido, com protocolos rigorosos, avaliações médicas e garantias éticas. No Brasil, ainda caminhamos timidamente nessa discussão. Mas o editorial aponta um fato importante: há uma crescente organização de grupos que defendem esse direito, e isso pode levar o tema a ganhar força no Congresso Nacional.
O medo de abusos é legítimo e precisa ser enfrentado com seriedade, mas não pode ser usado como pretexto para calar o debate. Em Medicina, aprendi que prolongar a vida a qualquer custo nem sempre é cuidar – às vezes, é apenas prolongar o sofrimento. E isso, sim, pode ser desumano.
Defender a morte digna é, paradoxalmente, defender a vida: a vida vivida com autonomia, sentido e liberdade até o último instante. Como lembra o texto da Folha, a decisão sobre este momento “deve estar sob controle apenas daquele que padece”. No dia em que compreendermos isso, daremos um passo imenso para uma Medicina mais humanizada e para uma sociedade mais compassiva.
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