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Dez minutos não bastam

“O encontro entre médico e paciente é, antes de tudo, um encontro entre duas pessoas”

Michael Balint

Caro leitor, permita-me compartilhar uma inquietação que vem crescendo silenciosamente dentro da Medicina contemporânea. Trata-se do tempo. Ou, mais precisamente, da falta dele.

Recentemente li uma crônica sobre uma teleconsulta que durou 10 minutos. Dez minutos para ouvir sintomas, fazer perguntas, registrar informações no sistema e oferecer uma orientação. A narrativa tinha algo de irônico e algo de melancólico. O paciente percebia que o relógio parecia conduzir o encontro.

E isso me fez pensar. Vivemos uma época fascinante do ponto de vista tecnológico. A Medicina incorporou ferramentas extraordinárias. Exames de imagem cada vez mais sofisticados, algoritmos que ajudam no diagnóstico, prontuários digitais, inteligência artificial e, naturalmente, a telemedicina.

Durante a pandemia de Covid-19, as teleconsultas foram uma verdadeira salvação para muitos pacientes. Eu mesma atendi inúmeros pacientes de psiquiatria de forma on-line naquele período. Para pessoas isoladas, ansiosas, deprimidas ou com medo de sair de casa, esse recurso foi essencial.

Foi, como dizemos coloquialmente, uma mão na roda. Pacientes puderam manter acompanhamento. Tratamentos não foram interrompidos. A escuta clínica continuou existindo mesmo em meio ao distanciamento físico imposto pela crise sanitária.

Seria um erro negar os benefícios dessa modalidade de atendimento. A telemedicina ampliou acesso, reduziu deslocamentos e, em muitos casos, facilitou o contato entre médico e paciente. Em um país continental como o Brasil, isso tem enorme relevância.

Mas toda inovação traz também novos desafios éticos. E aqui surge uma pergunta importante. A tecnologia está aproximando ou afastando as pessoas dentro da Medicina? A resposta não é simples.

Uma consulta médica nunca foi apenas um momento técnico. Ela sempre foi, também, um encontro humano. O paciente chega trazendo sintomas, mas também traz medos, dúvidas, expectativas e, muitas vezes, sofrimento que não cabem em formulários.

Escutar exige tempo. Compreender exige presença. Criar vínculo exige disponibilidade. Quando a consulta se transforma em um espaço rigidamente cronometrado, algo se perde. Não se trata de nostalgia por uma Medicina romântica do passado. Trata-se de reconhecer que certos elementos da prática clínica não podem ser comprimidos sem consequências.

Michael Balint, psicanalista húngaro que estudou profundamente a relação médico-paciente, dizia que o médico é ele próprio um instrumento terapêutico. Sua presença, sua escuta e sua capacidade de compreender o sofrimento do outro fazem parte do tratamento.

Isso não cabe em 10 minutos. Especialmente na psiquiatria, onde muitas vezes o sintoma está entrelaçado com histórias de vida, conflitos emocionais e experiências subjetivas complexas. A consulta precisa de espaço para que o paciente possa falar e, às vezes, até para que possa silenciar.

A telemedicina não precisa destruir esse espaço. Pelo contrário. Ela pode preservá-lo. O problema não está na tecnologia. O problema está na lógica de produtividade que ameaça invadir a Medicina.

Quando consultas passam a ser organizadas como linhas de montagem, algo profundamente humano se deteriora. O paciente se sente apressado. O médico se sente pressionado. O encontro clínico se transforma em tarefa administrativa.

É nesse momento que surge a impessoalidade. E a Medicina impessoal é sempre uma Medicina empobrecida. Não podemos permitir que a teleconsulta se torne uma espécie de senha para consultas cada vez mais rápidas, distantes e superficiais. A tecnologia deve servir ao cuidado, não substituí-lo.

Uma boa consulta, presencial ou on-line, precisa de algo que nenhuma plataforma digital pode automatizar: a qualidade da atenção humana. Olhar para o paciente. Escutar sem pressa. Fazer perguntas que não estão nos protocolos. Perceber aquilo que não aparece nos exames. Esses elementos continuam sendo o coração da prática médica.

A Medicina mudou muito nas últimas décadas. Mudou para melhor em muitos aspectos. Mas algumas coisas precisam permanecer intactas. Entre elas, a ideia de que o paciente não é um caso, nem um número de prontuário, nem um tempo marcado na agenda. Ele é uma pessoa. E pessoas não cabem em 10 minutos.

originalmente do JLPolitica.com.br

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