“A maior revelação é o silêncio” – Lao Tsé
Há quem diga que o Brasil só começa depois do Carnaval – e talvez estejam certos. Mas é exatamente por isso que escolho começar agora. Começo anunciando algo novo: um livro. Ainda sem título, mas com direção firme.
Um livro que tem corpo, tem alma e tem urgência. Nasceu da escuta que não cabe mais no consultório. Nasceu da inquietação com tudo o que normalizamos e nasceu da recusa em aceitar que viver exausta seja o novo normal.
Enquanto o país se agita em festas, batuques, serpentinas e fuga – assim é fevereiro -, eu escrevo. Não fujo. Mergulho. Escrevo porque há coisas que não podem mais esperar. E escrevo porque sei que há quem leia em silêncio, seja ou não Carnaval. Há quem olhe para o espelho, cansada, e pense: não era para ser assim.
Hoje eu me dirijo às mulheres em especial. Você sabe do que estou falando. Da insônia arrastada que vai sendo tratada com ansiolítico e paciência. Da libido que desaparece aos quarenta anos e é recebida com resignação. Da fadiga que não passa, mesmo depois das férias. Da ansiedade que chamam de temperamento. Dos intestinos inflamados que escutam, mas não se acalmam.
É sobre isso que escrevo neste novo livro: sobre o corpo que grita quando a mente já se calou, sobre a normalização do adoecimento, sobre o perigo de chamar de rotina o que é, na verdade, uma sucessão de pequenos colapsos.
Fui formada em uma Medicina que sabia nomear com precisão, que tratava diagnósticos com elegância científica e que separava corpo de mente com segurança técnica. E por muito tempo, isso me serviu. Mas depois de décadas escutando sofrimentos simbólicos, percebi algo: o corpo não negocia.
É possível melhorar o discurso e continuar inflamado. É possível elaborar o trauma e continuar intoxicado de cortisol. É possível ressignificar a dor e não dormir uma noite inteira. O simbólico não regula o intestino, não repõe hormônio e não dissolve a fadiga. E foi aí que a clínica me exigiu mais.
Hoje, faço o que chamo de Medicina real. Uma Medicina que escuta, mas também investiga. Que acolhe, mas também orienta. Que reconhece o simbólico, mas também se curva à bioquímica. Que trata sintomas, mas não se limita a silenciá-los.
Escrevo isso num mês de Carnaval porque acredito que há um silêncio que vale mais do que mil diagnósticos: o silêncio do corpo quando está regulado. Quando o sono é profundo. Quando o humor tem sustentação. Quando a libido não desapareceu. Quando há clareza para pensar e coragem para escolher.
A epígrafe de Lao Tsé me acompanha: a maior revelação é o silêncio. E eu acrescentaria: especialmente quando esse silêncio vem de um organismo que parou de gritar.
Não se trata de um manifesto contra psicofármacos, nem de um panfleto de autoajuda, tampouco uma cartilha de suplementação. É uma tomada de posição. É a constatação de que felicidade não é conforto. É potência. E potência, diferente do que muitos gurus e livros prometem, não é leveza constante nem paz ininterrupta. É musculatura psíquica para suportar a vida como ela é, sem anestesia. É acordar com energia suficiente, é ter desejo porque há vitalidade e é envelhecer com dignidade hormonal.
É ter estrutura para sustentar o que se escolhe. Quem quer conforto, talvez se irrite com meu novo livro. Quem quer potência, talvez se reconheça. O capítulo final diz isso com clareza: você não constrói propósito sobre um corpo inflamado. Não constrói lucidez sobre um intestino disfuncional. Não constrói alegria sobre fadiga crônica. Não constrói amor sobre colapso.
Felicidade é efeito colateral de organismo funcional e vida coerente. Não vem de frases – vem de sustentação. Sustentação que exige disciplina, escolhas clínicas responsáveis, decisões conscientes. E que, quase sempre, exige coragem.
Por isso escrevo. Por isso compartilho este início, porque sei que há quem esteja cansada de paliativos. Cansada de se arrastar. Cansada de pedir exames que nunca chegam. Cansada de esperar que o corpo se regule sozinho. Cansada de ouvir que “é assim mesmo”.
Não. Não é assim mesmo. Você merece mais. Mais saúde, mais lucidez, mais estrutura, mais respeito. E, sobretudo, merece responsabilidade: da Medicina e de si mesma. Se este livro que estou escrevendo cumprir seu papel, ele não vai deixar ninguém confortável. Vai deixar responsável.
Porque no fim, tratar é conectar. E sustentar essa conexão exige presença. Consciência. E, sim, alguma dose de silêncio. Então, enquanto o país dança lá fora, convido você a esse silêncio que revela. A esse Carnaval íntimo. A esse começo que não espera quarta-feira. Vamos juntas?
originalmente do JLPolitica.com.br
