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Caminhos sombrios do envelhecimento e do cuidado

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É no cuidado que reside a nossa humanidadeLeonardo Boff

Cuidar não é apenas um atomas um modo de serLya Luft

Cuidar, como nos lembram Leonardo Boff e Lya Luft, não é apenas uma ação funcional, mas uma maneira de estar no mundo, uma postura ética diante da fragilidade alheia.Essas reflexões se tornam dolorosamente necessárias.

Hoje cedo eu estava lendo o meu jornal matinal e após a leitura da matéria de Fátima Kamata, correspondente da Folha de S.Paulo no Japão, publicada em 21 de junho de 2025, decidi escrever este texto. A ideia de escrever surgiu ao ser confrontada com uma realidade tão silenciosa quanto alarmante: no Japão, a cada oito dias, uma pessoa idosa é morta por seu cuidador, quase sempre um familiar, muitas vezes também idoso, exausto, sem rede de apoio e, não raro, à beira do suicídio. Esse fenômeno tem nome: care killing. Quando o cuidador, em colapso, já não vê outra saída a não ser eliminar aquele de quem cuida e, em seguida, eliminar a si mesmo.

É difícil ler esses relatos sem um nó na garganta. Hiroshi Fujiwara, 81 anos, cuidou sozinho de sua esposa cadeirante por quatro décadas, até o dia em que, sem força e sem esperança, a empurrou de uma ponte. “Se eu tivesse pedido ajuda, isso não teria acontecido”, declarou ao tribunal. Essa frase ressoa como um eco de inúmeras situações em que o amor se transforma em peso, o cuidado em cárcere, o vínculo em desespero.

No Japão, 36 milhões de pessoas têm 65 anos ou mais — quase um terço da população. Muitos precisam de assistência constante. Os cuidadores, em sua maioria, também envelhecidos, enfrentam uma rotina extenuante: demência, limitações físicas, noites em claro. O suporte público é insuficiente, e a cultura da contenção emocional agrava ainda mais o sofrimento silencioso.

É inevitável, ao lermos essa matéria, não traçar paralelos com a realidade brasileira. Ainda que em outro ritmo, o Brasil também envelhece. Em 2022, 15,8% da população já tinha mais de 60 anos. As projeções indicam que, em poucas décadas, seremos uma sociedade majoritariamente idosa. Mas estamos preparados para cuidar? Sabemos sustentar o cotidiano de alguém que depende de nós para tudo, por tempo indeterminado? Dispomos de redes comunitárias, políticas públicas, apoio psicológico e financeiro para quem cuida?

A resposta, tristemente, é não. Aqui, como lá, o cuidado ainda é visto como um “dever da família”. E isso, geralmente, quer dizer: um fardo que recai sobre uma mulher. Filhas, esposas, noras — essas são as que mais sofrem com a sobrecarga. Lembro-me das tantas pacientes que me relatam, com voz embargada, a experiência de cuidar de pais com Alzheimer, de cônjuges com doenças degenerativas. “Ninguém vê a gente”, dizem. E têm razão. O cuidador é o invisível do sistema de saúde.

No Brasil, o cuidado ainda é improvisado, sem política estruturada de suporte ao cuidador informal. Há algumas iniciativas, sim — mas isoladas, muitas vezes urbanas e elitizadas. A medicina, com frequência, medicaliza o problema. E a saúde mental do cuidador segue negligenciada, quando não culpabilizada. É urgente uma mudança de paradigma. Precisamos pensar o cuidado como política pública e como pacto social. O cuidado não pode mais ser um assunto privado, relegado aos lares, às mulheres, ao improviso. Cuidar é, como diz Lya Luft, um modo de ser. Mas não pode ser um modo de sofrer.

Talvez o care killing pareça distante, uma aberração estrangeira. Mas o esgotamento do cuidador brasileiro, ainda invisível, também mata — aos poucos, silenciosamente. Mata os vínculos, a saúde, o afeto. E também pode matar o outro, ou a si mesmo, quando não há mais onde se apoiar.

E você, caro leitor, conhece alguém que cuida sozinho de um idoso dependente? Já testemunhou esse tipo de exaustão? Talvez esteja mais perto do que imaginamos. Que possamos transformar essa realidade antes que ela se instale com a mesma força que vemos agora no Japão. Ainda há tempo. Mas ele está passando. E os cuidadores já estão gritando, ainda que em silêncio.

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