“O poder tende a corromper, e o poder absoluto corrompe absolutamente” Lord Acton
Caro leitor. Há algo profundamente inquietante quando um governante passa a agir como se fosse proprietário do planeta. Como se na geopolítica mundial existisse uma espécie de condomínio privado, onde alguns poucos líderes arrogam para si o direito de decidir destinos, traçar fronteiras, determinar guerras e administrar riquezas naturais que pertencem, antes de tudo, aos povos de cada nação.
Recordo-me frequentemente da advertência de Lord Acton, que escolhi para abrir esta reflexão. O poder, quando não é temperado pela ética, pela prudência e pelo respeito às instituições, torna-se uma força intoxicante. E essa intoxicação política tem sido visível em diversas figuras públicas contemporâneas. Entre elas, Donald Trump.
Trump sempre cultivou uma visão peculiar da política internacional: uma lógica empresarial rudimentar, tosca, na qual as nações parecem ser tratadas como ativos negociáveis e os conflitos como oportunidades de vantagem econômica. Não se trata aqui de ingenuidade ideológica. Trata-se de uma concepção de mundo profundamente pragmática e perigosamente simplificada.
Não me entendam mal. Não sou, de forma alguma, complacente com regimes autoritários. O regime de Nicolás Maduro, na Venezuela, é uma tragédia política e humanitária. O terror que o Irã espalha no Oriente Médio por meio de grupos armados e estratégias de desestabilização regional também não merece qualquer complacência moral.
Autoritarismo, repressão e violência estatal são sempre condenáveis. Mas, e aqui reside o ponto essencial, nada disso justifica aventuras militares, invasões ou a instrumentalização de conflitos com objetivos econômicos.
A história recente está cheia de exemplos que nos ensinaram, da maneira mais dolorosa possível, que guerras travestidas de “libertação” frequentemente escondem interesses estratégicos muito concretos. Petróleo, rotas comerciais, influência geopolítica.
Quando analisamos certas falas e posicionamentos de Trump sobre o Oriente Médio ou sobre a política energética internacional, a impressão que emerge é desconcertante: o subsolo parece importar mais do que os povos que vivem sobre ele. O foco é o petróleo. No fundo, portanto, muitas vezes a disputa não é por valores, democracia ou liberdade. É por barris. Ou por terras raras.
E essa lógica transforma países inteiros em peças de um tabuleiro geopolítico. Não coloco todos os conflitos no mesmo saco – seria intelectualmente desonesto fazê-lo. A situação da Ucrânia, por exemplo, é de natureza completamente distinta. Ali assistimos a uma invasão clara por parte da Rússia de Vladimir Putin, uma agressão que fere frontalmente o direito internacional. A resistência ucraniana, liderada pelo presidente Volodymyr Zelensky, tornou-se um símbolo de coragem política diante de um autoritarismo expansionista.
A Ucrânia luta pela sua soberania, pela sua identidade nacional e pela sua própria sobrevivência como Estado. Não há equivalência moral possível entre isso e outros cenários. Mas justamente por compreender essas diferenças é que precisamos denunciar, sempre, a tentação imperial que ronda certos líderes mundiais, aqueles que, investidos de poder, começam a agir como se fossem administradores do planeta.
Voltando à epígrafe de Lord Acton, é lícito dizer que o perigo do poder não está apenas na corrupção moral individual. Está também na ilusão de grandeza que ele produz. Na sensação de que se pode tudo. De que instituições, fronteiras e povos são obstáculos menores diante da vontade de quem governa.
Infelizmente, essa mentalidade não é exclusividade de líderes estrangeiros. Também no Brasil já assistimos a um presidente que se comportava como se estivesse acima da Constituição, como se pudesse tensionar instituições, estimular rupturas e flertar perigosamente com fantasias autoritárias.
A democracia brasileira resistiu, felizmente, porque as instituições daqui, ainda que imperfeitas – muito imperfeitas -, mostraram-se mais fortes que os delírios do poder e de alguns poderosos. A história política está repleta de figuras que se julgaram indispensáveis, messiânicas ou proprietárias do destino coletivo. O poderoso Lula da Silva, por exemplo, na minha leitura, é outra falácia. Mas esse é outro tema.
Enfim, das figuras que se supunham indispensáveis, nenhuma terminou bem! A civilização, afinal, não foi construída pela força de homens que se acreditavam donos do mundo. Foi construída, ao contrário, pela lenta edificação de limites – leis, instituições, direitos e responsabilidade moral diante do poder.
Por isso, caro leitor, sempre que um líder, seja ele norte-americano, russo, venezuelano ou brasileiro, começa a agir como se o planeta fosse seu patrimônio privado, convém lembrar novamente Lord Acton. O poder corrompe. E quando alguém começa a acreditar que pode redesenhar o mundo segundo seus próprios interesses, o primeiro sinal de alerta da democracia já deveria estar soando. Porque nenhuma nação, nenhuma guerra e nenhuma riqueza natural justifica a arrogância de quem se imagina dono da história. E muito menos dono do mundo.
originalmente do JLPolitica.com.br
