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A arte como receita e viagem de cura

A arte lava da alma a poeira do dia a dia.

Pablo Picasso

Imagine sair de uma consulta médica com uma receita que não inclui comprimidos, mas um convite: “Visite uma exposição de arte. Vá ao teatro no fim de semana. Assista a uma sessão de cinema autoral. Participe de uma roda de leitura”. Parece inusitado, não? Mas essa é uma realidade que começa a tomar corpo também no Brasil. Médicos, cada vez mais, reconhecem o valor terapêutico das experiências culturais — não como um acessório frívolo, mas como parte estruturante do cuidado com a saúde mental.

Essa prática, conhecida em alguns países como “prescrição social”, tem ganhado espaço sobretudo onde a medicina ainda insiste em reduzir o sofrimento psíquico ao biológico. Em países como Reino Unido, Canadá, Bélgica e Suíça, a recomendação de atividades culturais já é adotada por serviços públicos de saúde, com efeitos documentados na redução de sintomas de ansiedade, depressão e isolamento. É uma aposta ousada, mas profundamente coerente com o que muitos de nós, clínicos atentos, já percebíamos na escuta dos pacientes: a alma humana não se reestrutura apenas com remédios. Ela precisa de beleza, de simbolização, de novas linguagens para se reconhecer e, quem sabe, se reinventar.

Quantas vezes escutamos, em consultório, relatos de vidas que se tornaram áridas, cinzentas, sem novidade? Pessoas cujos dias se repetem com a monotonia de um roteiro mecânico: casa-trabalho-supermercado-noticiário-sono. Nessa engrenagem sem cor, perde-se o sabor de viver. E é nesse ponto que a arte surge não como entretenimento, mas como instrumento de resgate. Porque viver, para ser pleno, precisa ser também viagem — e toda experiência estética nos transporta. Viajar não é apenas deslocar o corpo: é alargar a mente, deslocar os afetos, oxigenar o espírito.

Um concerto pode emocionar como nenhuma cápsula. Um poema pode dizer o indizível de uma dor antiga. Uma peça de teatro pode emprestar palavras a conflitos que, até então, eram apenas sensação difusa. Não se trata de romantizar o sofrimento, mas de reconhecer que há, nos territórios da arte, uma potência terapêutica que o modelo biomédico, fragmentado e hipertrofiado em diagnósticos, muitas vezes ignora.

Aqui mesmo no Brasil já vemos iniciativas pioneiras, como a do psiquiatra Luiz Gustavo Zoldan, do Albert Einstein. Ele coordena um serviço de saúde mental que passou a prescrever atividades culturais como parte do tratamento. Segundo ele, a arte contribui não só para a melhora do humor, mas também para o fortalecimento dos vínculos sociais e da autoestima. O paciente, ao se reconhecer na obra ou na vivência artística, escapa da condição de “doente” e se reinsere como sujeito no mundo.

Não é à toa que Picasso dizia que a arte lava da alma a poeira do dia a dia. O cotidiano, com seus automatismos e suas urgências, suja nossa percepção da vida com uma camada de cansaço e desesperança. A arte, ao contrário, é convite à pausa, à fruição, à escuta de si. E, ao mesmo tempo, é abertura ao outro. Quando nos emocionamos diante de uma tela ou de uma música, não estamos sozinhos: estamos em diálogo com todos os que, em algum ponto da história, também sentiram, sofreram, amaram, duvidaram. Essa comunhão simbólica é profundamente reparadora. É ela que nos diz: “Você não está só.”

Caminhar por um museu, folhear um livro de poesia, dançar, pintar, escrever, cantar — tudo isso são formas de mobilizar afetos que, muitas vezes, estavam reprimidos ou esquecidos. Em tempos de hiperconexão digital e desconexão emocional, atividades culturais nos devolvem a experiência da presença. Não a presença automática, funcional, mas a presença vivida. E isso é revolucionário.

Talvez você, leitor ou leitora, esteja se perguntando: “Mas será que isso serve para mim?” Minha resposta é: experimente. Vá a uma exposição mesmo sem entender de arte. Leia um romance em vez de rolar mais um feed. Ouça música clássica, mesmo que não saiba o nome dos compositores. Leve seus filhos ou netos ao teatro. Deixe-se tocar. Viaje com a mente e com os sentidos. Há mundos inteiros esperando por você — dentro e fora de si.

Como médica humanista, que há décadas escuta os gritos e silêncios da alma, posso afirmar: o que chamamos de saúde mental não se sustenta sem afeto, sem vínculos e sem sentido. E a arte é um modo nobre de reconstruir esses três pilares. Que saibamos prescrever beleza, narrativas, encontros. Que possamos, sempre, convidar nossos pacientes — e a nós mesmos — a sair do modo de sobrevivência e entrar no modo de viagem. Porque cuidar da mente é também uma forma de viajar. E ninguém volta igual de uma boa viagem.

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