A bioquímica do afeto: por que emoções também curam?
Por décadas a Medicina só acreditou no que se mede. Sobre como o afeto age no corpo e por que as emoções…

“A vida de cada homem é um caminho em direção a si mesmo”
Hermann Hesse, Demian
Tenho pensado muito sobre o tempo. Não com melancolia, tampouco com medo, mas com aquela consciência que a maturidade nos oferece: chega um momento em que começamos a olhar menos para o que acumulamos e mais para aquilo que estamos deixando pelo caminho.
Para mim, ultimamente, o futuro tem dois nomes: Adam e Louise. Talvez por isso tenha me tocado tanto o convite para participar da Antologia Sensações, da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Sobrames. O livro será lançado durante o Congresso Nacional da entidade, em Aracaju, ocasião em que também terei a alegria e a honra de ser homenageada como médica escritora.
O convite me fez pensar sobre minha própria escrita. Depois de tantos livros, artigos, aulas e crônicas, percebo que escrever deixou de ser apenas uma maneira de registrar ideias ou dialogar com o meu tempo. Começo a enxergar meus escritos também como pequenas mensagens lançadas ao futuro.
Penso nos meus netos Adam e Louise crescendo e, quem sabe, um dia encontrando um livro da avó numa estante. Gostaria que descobrissem ali não apenas quem eu fui, mas aquilo que me inquietava, as perguntas que fiz, os valores que defendi, as dúvidas que tive e até as ideias que precisei modificar ao longo da vida.
Não pretendo deixar-lhes um manual de existência. Seria uma enorme pretensão. Quero deixar algo que considero muito mais precioso: a centelha da curiosidade. O gosto pelos livros, pelo conhecimento, pela dúvida, pela palavra. Gostaria que aprendessem a pensar e que tivessem liberdade, inclusive para discordar de mim.
Talvez legado seja menos sobre perpetuar nossas certezas e mais sobre estimular perguntas naqueles que continuarão depois de nós. A frase de Hermann Hesse que escolhi como epígrafe fala da vida como um caminho em direção a nós mesmos. Aos poucos, compreendo que esse caminho não é feito apenas do que conquistamos. É feito também do que transmitimos.
Hoje, quando escrevo, sei que converso com meus leitores e com o meu tempo. Mas há duas pessoas que ainda são pequenas demais para compreender grande parte dessas palavras e que, silenciosamente, começaram a ocupar um lugar especial entre os meus futuros leitores: Adam e Louise.
Talvez eles nunca leiam tudo o que escrevi. Não importa. Ficarei feliz se compreenderem uma única coisa: a avó deles passou a vida aprendendo e nunca perdeu o desejo de saber mais. Se eu conseguir transmitir isso, já terei deixado uma bela herança.
originalmente do JLPolitica.com.br
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