Entre o direito de viver e o direito de morrer: uma reflexão necessária
Morte assistida, autonomia e dignidade: uma reflexão ética sobre o direito de decidir o próprio fim diante de uma doença sem cura.

“A ciência é a grande antítese do dogmatismo” Carl Sagan
A história da Medicina é marcada por descobertas que mudaram completamente a forma de cuidar das pessoas. A penicilina transformou o tratamento das infecções. A insulina mudou a história do diabetes. Os antibióticos, as vacinas e os transplantes ampliaram a expectativa de vida da humanidade.
Agora estamos assistindo a uma outra transformação silenciosa, menos comentada fora do meio científico, mas profundamente impactante para quem convive com o sofrimento psíquico: o uso da cetamina no tratamento da depressão resistente.
Talvez você estranhe esse nome. Afinal, durante décadas, a cetamina foi conhecida como um anestésico utilizado em centros cirúrgicos. Como uma substância empregada para anestesia poderia se tornar uma das maiores esperanças da psiquiatria moderna?
A resposta está justamente na capacidade da ciência de rever suas próprias certezas. Como nos lembra Carl Sagan na epígrafe deste texto, o conhecimento científico só avança porque questiona aquilo que parecia definitivo.
Durante muitos anos acreditou-se que todos os antidepressivos deveriam agir sobre neurotransmissores como serotonina, noradrenalina e dopamina. Esses medicamentos revolucionaram a psiquiatria e continuam salvando milhões de vidas. Entretanto, também aprendemos que uma parcela dos pacientes simplesmente não melhora de forma satisfatória, mesmo após diferentes tratamentos conduzidos corretamente.
É justamente para esse grupo que a cetamina surgiu como uma possibilidade terapêutica. Seu mecanismo de ação é completamente diferente dos antidepressivos tradicionais. Em vez de atuar prioritariamente sobre a serotonina, ela interfere nos sistemas relacionados ao glutamato, o principal neurotransmissor excitatório do cérebro. Essa ação parece favorecer processos de neuroplasticidade, estimulando conexões entre neurônios que haviam sido comprometidas pelo adoecimento depressivo.
Traduzindo para uma linguagem mais simples, é como se ajudasse o cérebro a recuperar caminhos que estavam interrompidos pelo sofrimento prolongado. Outro aspecto impressionante é a velocidade de resposta. Enquanto muitos antidepressivos levam semanas para produzir efeito, a cetamina pode proporcionar melhora muito mais rápida em alguns pacientes, inclusive na redução de pensamentos suicidas. Em Psiquiatria, tempo nem sempre é apenas tempo. Muitas vezes, tempo significa preservar uma vida.
Mas é exatamente nesse ponto que precisamos de prudência. Nenhuma inovação científica deve ser recebida como um milagre. A cetamina não é indicada para todos os casos de depressão. Ela não substitui a psicoterapia, não elimina a necessidade de mudanças no estilo de vida e tampouco representa uma solução mágica para o sofrimento humano.
Na minha prática clínica, alguns pacientes têm se beneficiado dessa estratégia terapêutica. Digo “alguns” porque a Medicina séria não trabalha com generalizações. Cada história é única. Cada cérebro responde de maneira diferente. Cada indicação exige avaliação criteriosa, acompanhamento próximo e um ambiente seguro para sua administração.
Esse talvez seja um dos maiores ensinamentos da Medicina contemporânea: não existem tratamentos universais. Existe aquilo que faz sentido para aquela pessoa, naquele momento específico de sua vida.
Outro aspecto que merece atenção é que a depressão raramente é apenas um desequilíbrio químico. Ela atravessa perdas, traumas, relações afetivas, experiências de abandono, padrões de personalidade, fatores biológicos e até condições inflamatórias ou metabólicas. Seria simplista imaginar que qualquer medicamento, por mais moderno que seja, resolveria sozinho uma realidade tão complexa.
A psicanálise nos ensina que o sofrimento possui uma narrativa. A Medicina nos mostra que essa narrativa também encontra expressão na biologia cerebral. Hoje, felizmente, não precisamos escolher entre uma visão e outra. Podemos integrar ambas.
Talvez essa seja a verdadeira revolução da saúde mental neste século: compreender que cérebro e mente não competem. Dialogam. Quando oferecemos ao paciente um tratamento farmacológico inovador, associado ao cuidado psicoterápico, ao sono adequado, à atividade física, à alimentação equilibrada e ao fortalecimento dos vínculos humanos, deixamos de tratar apenas uma doença. Passamos a cuidar de uma pessoa.
Volto, então, à epígrafe de Carl Sagan. A ciência se opõe ao dogmatismo porque nos convida permanentemente à humildade. Aquilo que ontem era apenas um anestésico, hoje pode representar um adjuvante valioso para pessoas que perderam a esperança após tantas tentativas frustradas de tratamento.
Não se trata de abandonar o que já conhecemos, mas de ampliar as possibilidades do cuidado. A Medicina continua evoluindo. Felizmente. E talvez a maior revolução não seja um novo medicamento, mas a capacidade de olhar cada paciente sem preconceitos, sem fórmulas prontas e sem perder de vista aquilo que sempre esteve no centro da boa prática médica: aliviar o sofrimento humano com ciência, ética e compaixão.
originalmente do JLPolitica.com.br
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