Quando governantes se julgam donos do mundo
Quando líderes agem como donos do planeta: uma reflexão sobre poder, geopolítica e o que isso cobra da nossa consciência.

Setembro chegou vestido de amarelo e, mais uma vez, somos convidados a falar sobre prevenção do suicídio. É necessário. O silêncio, o preconceito e o medo de conversar sobre sofrimento psíquico ainda podem dificultar a procura por ajuda. Mas, neste Setembro Amarelo, uma pesquisa sobre estudantes de Medicina me fez pensar que precisamos ir além das campanhas e fazer uma pergunta desconfortável: como estamos cuidando daqueles que estão sendo preparados para cuidar de nós?
A Folha de S.Paulo publicou, em 8 de setembro de 2026, uma reportagem sobre pesquisa realizada com 1.026 estudantes de Medicina, maiores de 18 anos, do primeiro ao sexto ano, pertencentes a 74 instituições públicas e privadas brasileiras. Os números impressionam: 66% apresentaram sintomas de depressão de moderados a graves e 50,5% sintomas de ansiedade de moderados a graves. O trabalho foi conduzido por pesquisadores do Centro de Pesquisa e Inovação em Saúde Mental e publicado no Brazilian Journal of Psychiatry.
É importante fazer uma ressalva. Estamos falando de sintomas identificados por instrumentos de rastreamento, e não afirmando que dois em cada três estudantes tenham diagnóstico clínico de depressão. Tampouco podemos estabelecer uma equivalência automática entre depressão e suicídio. O rigor é particularmente importante quando tratamos de saúde mental. Ainda assim, os números são suficientemente graves para que não desviemos os olhos.
A reportagem traz uma expressão do pesquisador Rodolfo Furlan Damiano que deveria inquietar todos nós envolvidos na formação médica. Segundo ele, o sofrimento acaba sendo “naturalizado como parte da formação”. Talvez esteja aí uma das questões mais difíceis: em que momento passamos a considerar o sofrimento uma espécie de rito de passagem para se tornar médico?
Sou médica há 44 anos e professora de Medicina. Conheço por dentro essa formação, primeiro como aluna e, durante tantos anos, do outro lado da sala de aula. A Medicina é exigente e precisa continuar sendo. Estamos formando profissionais que lidarão com a vida, a doença, a dor e a morte. Não estou defendendo uma formação sem exigências, avaliações ou responsabilidades. Estou perguntando se exigência precisa ser sinônimo de adoecimento.
Há uma cultura antiga na Medicina que confunde resistência com competência. Dormir pouco parece demonstrar dedicação. Trabalhar até a exaustão ganha contornos de virtude. Não ter tempo para si torna-se quase motivo de orgulho. O jovem aprende cedo a cuidar da dor do outro enquanto frequentemente é ensinado a silenciar a própria.
A própria pesquisa oferece uma pista importante. A falta de tempo apareceu como principal fator associado ao sofrimento, enquanto colaboração entre colegas, inclusão social, boa relação com professores e percepção mais positiva do ambiente acadêmico estiveram relacionadas a menor intensidade de sintomas. Isso nos obriga a reconhecer algo que às vezes preferimos individualizar: saúde mental não depende apenas da estrutura psíquica de cada pessoa. Os ambientes também podem proteger ou adoecer.
Como professora, isso me toca especialmente. O professor de Medicina não transmite apenas conhecimentos. Também ensina pelo modo como trata seus alunos, como recebe uma dúvida, como reage ao erro e como exerce sua autoridade. Podemos formar pelo medo ou pela curiosidade. Podemos humilhar ou estimular. Podemos produzir competição permanente ou ensinar colaboração. E tudo isso também participa da formação do médico que chegará amanhã diante de um paciente.
Talvez devêssemos perguntar menos aos nossos estudantes “quanto você estudou?” e, de vez em quando, perguntar: “Como você está?” E ter tempo e disponibilidade para escutar a resposta.
É aqui que a epígrafe atribuída à tradição hipocrática ganha para mim seu sentido mais profundo: onde existe amor à Medicina, deve existir também amor à humanidade. E a humanidade não começa apenas quando o médico recebe seu primeiro paciente. Ela precisa estar presente na universidade, nas relações entre professores e alunos, entre colegas, nos internatos, nas residências e em todos os espaços onde alguém aprende a cuidar.
Setembro Amarelo não pode ser apenas um mês de laços, campanhas e frases bonitas. Prevenção exige informação responsável, acesso ao cuidado, redes de apoio e ambientes nos quais alguém possa admitir que não está bem sem temer ser considerado fraco, incapaz ou inadequado para a profissão que escolheu.
Precisamos ensinar aos futuros médicos que pedir ajuda não os torna menos médicos. Precisamos ensiná-los que descanso não é preguiça, que vulnerabilidade não é incompetência e que ninguém deveria precisar adoecer para provar que merece vestir um jaleco.
A Medicina que desejo ajudar a deixar para as próximas gerações é tecnicamente excelente, cientificamente rigorosa e profundamente humana. Uma Medicina que cuide do paciente sem sacrificar quem cuida dele.
Porque, se queremos formar médicos capazes de proteger a vida dos outros, precisamos parar de considerar normal que aprendam a Medicina adoecendo.
Fonte: reportagem “2/3 dos estudantes de medicina têm sintomas depressivos, aponta estudo”, Folha de S.Paulo, 8 de setembro de 2026.
originalmente do JLPolitica.com.br
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