Because I Got High… em New Orleans
Uma road trip entre Mississippi e Louisiana, e o que uma viagem ensina sobre se render ao que ainda não se compreende.

“A vida dos mortos está na memória dos vivos” Cícero
Há homenagens que nos alegram pelo reconhecimento de uma trajetória. Outras nos comovem porque despertam lembranças, afetos e saudades que o tempo não conseguiu apagar. A homenagem que recebo da Sociedade Médica de Sergipe, na véspera do Dia do Médico, reúne tudo isso e me convida a refletir sobre aquilo que verdadeiramente permanece de nós.
Receber a Medalha Dr. Fedro Menezes Portugal tem um significado muito especial. Fedro foi meu médico, meu professor e meu amigo. Foi meu confrade nas Academias Sergipanas de Medicina e de Educação, presidente da Academia Sergipana de Medicina e paraninfo da minha turma, formada em 1982. Ao lado do querido professor Délcio Calheiros, ensinou-nos Dermatologia. Essa medalha, portanto, toca a estudante que fui, a médica que me tornei, a professora que continuo sendo e, sobretudo, a amiga que sente profundamente a sua ausência.
A vida tem uma maneira dolorosa de nos ensinar que nem todos os encontros poderão ser repetidos. Adiamos conversas, manifestações de carinho e agradecimentos, como se sempre houvesse outra oportunidade. Até que alguém parte e compreendemos que a saudade é também o testemunho da importância que aquela pessoa teve em nossa história. Fedro deixou uma ausência imensa, mas também um exemplo de competência, ética e humanidade.
Era um médico respeitado pelo conhecimento e querido pela maneira como tratava as pessoas. No serviço público ou no consultório particular, reconhecia em cada paciente a mesma dignidade. Essa é uma lição especialmente importante numa época em que a Medicina dispõe de recursos tecnológicos extraordinários, mas nem sempre reserva tempo suficiente para aquilo que continua sendo essencial: escutar.
Ao longo de mais de quatro décadas de exercício profissional, aprendi que um paciente não nos entrega apenas sintomas para investigar. Ele nos confia medos, expectativas, fragilidades e, às vezes, sofrimentos para os quais ainda não encontrou palavras. A ciência é indispensável, mas precisa estar acompanhada de sensibilidade e responsabilidade ética. Afinal, de que vale tanto conhecimento se perdemos a capacidade de reconhecer a pessoa diante de nós?
A homenagem também me oferece uma alegria íntima e difícil de traduzir. Meus pais, Nazário e Elena Pimentel, aos 88 e 90 anos, estavam presentes para testemunhar esse momento. Aproximo-me dos setenta anos e ainda tenho o privilégio de olhar para a plateia e encontrar aqueles que acompanharam meus primeiros passos. Eles conheceram a menina que sonhava ser médica muito antes dos diplomas, dos livros e dos títulos. E estarão ali para celebrar a mulher que aquela menina se tornou.
Há algo profundamente comovente em receber uma homenagem diante de quem nos amou antes de qualquer conquista. Entre tantas identidades que construí ao longo da vida, continuo sendo filha de Nazário e de Elena. Talvez seja essa uma das maiores riquezas do envelhecimento: compreender que os vínculos mais preciosos não dependem daquilo que realizamos, mas do afeto que nos constitui.
É aqui que recupero a epígrafe de Cícero: “A vida dos mortos está na memória dos vivos.” A memória, entretanto, não deve ser apenas um lugar onde guardamos saudades. Ela pode transformar-se em compromisso. Honrar um mestre não significa somente recordar seus ensinamentos, mas permitir que eles continuem presentes em nossas atitudes.
Isso me faz pensar no que deixaremos para aqueles que vêm depois de nós. Como médica e professora, sei que transmitir conhecimentos é importante, mas ensinar pelo exemplo talvez seja ainda mais decisivo. Nossos alunos podem esquecer uma aula, mas dificilmente esquecerão a maneira como foram tratados. Nossos pacientes talvez não se lembrem de todas as explicações, mas guardarão a experiência de terem sido ouvidos e respeitados.
E você, leitor, já pensou no que gostaria que permanecesse de sua passagem pela vida? Não me refiro aos bens acumulados, aos cargos ocupados ou às homenagens recebidas. Penso nas pessoas que ajudamos, nas palavras que oferecemos em momentos difíceis e nas marcas de cuidado que deixamos, muitas vezes sem perceber.
Recebo esta medalha com gratidão à Sociedade Médica de Sergipe, ao seu presidente, meu querido amigo Raimundo Sotero de Menezes Filho, e a todos que compartilham comigo essa homenagem. Mas recebo, sobretudo, com a emoção de reencontrar, na memória, um professor e amigo que me ensinou que a grandeza da Medicina não está apenas no saber, mas na maneira como colocamos esse saber a serviço de alguém.
Talvez nosso verdadeiro legado seja menos aquilo que conquistamos e mais aquilo que despertamos nos outros. Fedro permanece na memória de seus alunos, pacientes, colegas e amigos porque sua presença fez diferença em nossas vidas. A vida passa. O afeto, quando se transforma em legado, encontra maneiras de permanecer.
originalmente do JLPolitica.com.br
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