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Entre a Copa e a vida: o desafio de alinhar expectativas

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“Toda a infelicidade dos homens provém de uma única coisa: não saber permanecer em repouso num quarto”

Blaise Pascal

Junho sempre me desperta sentimentos especiais. Nasci na ressaca do São João, quando as fogueiras já se apagaram, as bandeirolas começam a ser recolhidas e a vida retoma seu curso habitual. Talvez por isso eu tenha aprendido, desde cedo, que toda celebração é passageira e que a realidade nem sempre corresponde ao entusiasmo que a antecede.

Nos últimos dias, acompanhamos o empate entre Brasil e Marrocos na Copa do Mundo. Um resultado que deixou um gosto de incompletude para ambos os lados. Nem vitória, nem derrota. Apenas um empate. E foi interessante observar como um simples resultado esportivo mobilizou tantas emoções.

A expectativa é um fenômeno fascinante. Antes da partida, milhões de pessoas já haviam jogado o jogo dentro da própria cabeça. Haviam imaginado gols, vitórias, classificações e manchetes positivas. Quando a realidade apresentou um roteiro diferente, surgiu a frustração.

E aqui a epígrafe de Pascal nos convida a uma reflexão surpreendentemente atual. O filósofo francês acreditava que boa parte do sofrimento humano nasce da dificuldade de permanecer em repouso. Isto é, de aceitar os limites da nossa capacidade de controlar os acontecimentos.

Estamos sempre projetados para o futuro, antecipando cenários, tentando adivinhar resultados, negociando com aquilo que ainda não aconteceu. Talvez seja exatamente isso que chamamos, muitas vezes, de ansiedade.

Vivemos um tempo em que a palavra ansiedade passou a ocupar todos os espaços. Qualquer inquietação recebe esse nome. Qualquer preocupação é rapidamente transformada em diagnóstico. No entanto, nem toda ansiedade é um transtorno psiquiátrico.

A ansiedade faz parte da experiência humana. Ela nos acompanha desde sempre. É ela que nos mantém atentos diante de desafios, que nos mobiliza para agir, que nos ajuda a nos preparar para o que está por vir. O problema surge quando deixamos de viver o presente porque estamos excessivamente ocupados tentando controlar o futuro.

Foi isso que aconteceu com muitos torcedores. O empate talvez não tenha sido tão decepcionante pelo resultado em si, mas pela distância entre o que se esperava e o que efetivamente aconteceu. Na verdade, esse mecanismo não se restringe ao futebol.

Ele está presente nos relacionamentos, quando esperamos que o outro corresponda exatamente aos nossos desejos. Está presente na vida profissional, quando acreditamos que todo esforço será imediatamente recompensado. Está presente na família, quando imaginamos trajetórias perfeitas para aqueles que amamos.

Sofremos menos pelos fatos e mais pelas expectativas que construímos sobre eles. Quando releio Pascal, percebo que sua observação continua extraordinariamente atual. Talvez não saibamos mais permanecer em repouso porque fomos educados para acreditar que devemos prever tudo, controlar tudo e vencer sempre.

A vida não se constrói apenas com vitórias. Ela também é feita de empates, adiamentos e percursos inesperados que nos obrigam a rever certezas e recalcular expectativas. Muitas vezes, é justamente nesses momentos que ocorre o verdadeiro amadurecimento emocional.

Na clínica, vejo frequentemente pessoas que confundem sofrimento humano com doença. Nem toda tristeza é depressão. Nem toda preocupação é transtorno de ansiedade. Nem toda frustração precisa ser medicalizada. Algumas experiências precisam ser compreendidas antes de serem classificadas.

O empate entre Brasil e Marrocos talvez nos ofereça uma pequena lição sobre isso. A vida nem sempre entrega o resultado esperado. E amadurecer emocionalmente talvez seja aprender a conviver com essa verdade sem desespero.

Afinal, depois do apito final, depois das análises e dos comentários, o jogo continua. Assim também acontece conosco. A sabedoria não está em eliminar expectativas. Está em alinhá-las à realidade. E talvez seja exatamente nesse delicado equilíbrio entre esperança e aceitação que encontremos uma forma mais serena de viver.

originalmente do JLPolitica.com.br

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