Av. Ministro Geraldo Barreto Sobral, 2100 - sala 203 - Jardins, Aracaju - SE, 49026-010
artigo

Canetinhas: revolução terapêutica ou nova panaceia?

Voltar ao blog
Canetinhas: revolução terapêutica ou nova panaceia?

“Todas as coisas são veneno, e nada existe sem veneno; somente a dose faz com que uma coisa não seja veneno”
Paracelso

Você provavelmente conhece alguém que está usando uma das famosas “canetinhas”. Talvez seja para emagrecer, controlar o diabetes, melhorar a resistência insulínica ou simplesmente porque ouviu dizer que essas medicações estão fazendo verdadeiros milagres.

E então surge a pergunta inevitável: estamos diante de uma panaceia? Não gosto da palavra milagre quando falamos de medicina. Mas também seria injusto ignorar o impacto que medicamentos como a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, vêm provocando na prática clínica e na pesquisa científica.

No meu consultório, acompanho pacientes em processo de emagrecimento com tirzepatida e tenho observado algo que vai muito além da balança. O peso diminui, evidentemente, mas muitas vezes mudam também a disposição, a relação com a comida, a autoestima e a percepção que a pessoa tem do próprio corpo. E, para quem trabalha com saúde mental, isso merece uma atenção especial.

A tirzepatida atua nos receptores de GIP e GLP-1, envolvidos na regulação da glicose, da insulina, da fome e da saciedade. A Anvisa aprovou seu uso para controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a determinadas condições clínicas. Nos grandes estudos, a redução média do peso chegou, em alguns grupos, a cerca de 20%. É uma mudança importante no tratamento da obesidade.

Mas reduzir tudo isso ao emagrecimento seria simplificar demais. Quem atende pessoas com ansiedade, depressão ou compulsão alimentar sabe que comer não é apenas responder à fome. Comemos também para aliviar tensão, preencher vazios, buscar prazer, comemorar, anestesiar angústias. Há uma dimensão psíquica no comportamento alimentar que nenhuma molécula elimina.

E aqui está um aspecto fascinante dessas medicações. Muitos pacientes relatam diminuição daquela presença quase permanente da comida no pensamento. Falam menos em fome incessante, desejo compulsivo e dificuldade de interromper uma refeição. Esse fenômeno passou a ser popularmente chamado de food noise, ou “ruído da comida”.

Quando esse ruído diminui, algumas pessoas experimentam uma libertação. Pela primeira vez deixam de passar o dia negociando consigo mesmas se vão ou não comer.

Mas há outra pergunta, especialmente importante para mim: se a comida funcionava como consolo, o que ocupará esse lugar?

É nesse ponto que saúde metabólica e saúde mental se encontram. Não basta emagrecer o corpo se continuarmos carregando ansiedade, solidão, insônia, esgotamento ou uma relação adoecida conosco mesmos.

Há pacientes que precisam simultaneamente reorganizar alimentação, sono, exercício físico, vínculos e vida emocional. É por isso que não consigo enxergar essas medicações fora de um acompanhamento mais amplo.

Há ainda outras possibilidades sendo investigadas. Os benefícios metabólicos da tirzepatida alcançam a resistência à insulina e o diabetes tipo 2. Estudos também vêm mostrando resultados promissores em doença hepática associada ao acúmulo de gordura no fígado. A ciência pesquisa ainda possíveis repercussões em inflamação, dor crônica e outras condições.

A fibromialgia é um exemplo interessante. Existem hipóteses e estudos iniciais sugerindo que medicamentos dessa família possam ter alguma relação com melhora de dor e fadiga em determinados pacientes, mas ainda estamos longe de poder dizer que tirzepatida é tratamento estabelecido para fibromialgia. Essa distinção é essencial. Medicina baseada em evidências exige que saibamos separar aquilo que já foi demonstrado daquilo que ainda está sendo investigado.

O mesmo cuidado deve existir quando falamos em “microdoses”. Individualizar uma dose é medicina. Cada organismo responde de uma maneira, e tolerabilidade, idade, composição corporal, doenças associadas e objetivos precisam ser considerados. Entretanto, microdosagem não pode virar sinônimo de receita universal ou moda de internet.

Os grandes estudos com tirzepatida foram realizados com esquemas específicos de doses e titulação. A própria Anvisa descreve uma dose inicial de 2,5 mg semanal, seguida de progressão conforme indicação e tolerabilidade.

Lembra-se de Paracelso, na epígrafe deste texto? “Somente a dose faz com que uma coisa não seja veneno.”

A frase atravessou séculos porque continua profundamente atual. Uma excelente medicação, utilizada sem critério, pode se transformar em problema. Uma medicação poderosa exige acompanhamento igualmente cuidadoso.

Tanto é assim que a Anvisa tornou mais rigorosa a dispensação desses medicamentos no Brasil, exigindo retenção da receita, justamente diante do crescimento do uso indiscriminado e de relatos de eventos adversos.

E há uma notícia importante para quem trabalha com saúde mental. Depois de uma ampla revisão, a FDA informou em janeiro de 2026 que não encontrou aumento do risco de comportamento ou ideação suicida associado aos agonistas de GLP-1 avaliados e solicitou a retirada desse alerta das bulas norte-americanas que ainda o continham.

Isso não significa que devamos deixar de acompanhar o estado emocional de nossos pacientes. Significa apenas que, até agora, a melhor evidência disponível não confirmou aquele temor específico.

Então, afinal, as canetinhas são uma panaceia? Não. Mas também não são apenas mais uma moda.

Elas representam uma das transformações mais importantes dos últimos anos no tratamento da obesidade e das doenças metabólicas. E talvez ainda estejamos apenas começando a compreender tudo o que esses mecanismos podem representar para outras áreas da medicina.

O que não podemos fazer é trocar um preconceito por outro. Antes culpávamos o paciente com obesidade dizendo que lhe faltava força de vontade. Agora corremos o risco de acreditar que uma injeção resolverá, sozinha, uma vida inteira.

Não resolverá. Porque emagrecer é importante, melhorar a insulina é importante, proteger coração e fígado é importante. Mas saúde também é dormir bem, movimentar-se, sentir prazer, ter vínculos, reconhecer os próprios limites e conseguir habitar o próprio corpo sem estar permanentemente em guerra com ele.

É justamente aí que a canetinha deixa de ser protagonista e volta ao lugar que considero correto. Uma excelente ferramenta dentro de um cuidado maior. E medicina de verdade continua sendo muito mais do que uma receita.

originalmente do JLPolitica.com.br

Atendimento humanizado

Precisa de cuidado em saúde mental?

Agende uma consulta com a Dra. Déborah Pimentel e dê o primeiro passo para o seu bem-estar.

Podemos ajudar?